“O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas.”
A jornada da protagonista neste livro revela uma profunda transformação, lembrando tanto as provações de Psiquê no mito grego quanto a mística travessia da alma na noite escura do Cântico Espiritual de São João da Cruz. E você aprenderá isso lendo o livro.
Como um quadro esculpido do grande mistério que nos envolve, este livro, que “se pediu uma liberdade maior”, é a narrativa de uma iniciação e um extraordinário hino ao amor. Lóri, a protagonista, embarca em uma longa viagem ao mais profundo de si mesma, alcançando uma consciência total de ser. Ela afirma: “eu é”. Já Ulisses, um professor de filosofia, que possui fórmulas para explicar o mundo, se transforma em algo mais simples: um simples homem. Leia e descubra como ambos se encontram em face do outro.
O amor de Lóri e Ulisses, sendo trabalho, ascese e viagem, supera as diferenças, o estranhamento e até mesmo o medo da morte. E você aprenderá mais lendo o livro. A entrega física dos personagens se realiza com uma força tântrica de êxtase e epifania. Para Lóri, “a atmosfera era de milagre”; para Ulisses, “estava sofrendo de vida e de amor”.
Nada termina aqui, mas o momento anuncia uma nova aurora: “Ambos estavam pálidos e ambos se acharam belos.” Clarice Lispector sabiamente encerra a narrativa que começou com uma vírgula, deixando um final aberto para novas interpretações. Leia e descubra como a história termina.
“O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas.”
A experiência da protagonista desta aprendizagem mostra afinidades tanto com as provações da bela Psiquê, do mito grego, quanto com a mística aventura da alma, ao atravessar a noite escura no Cântico Espiritual de São João da Cruz.
Como um quadro cujas linhas mestras o recortassem do grande mistério que tudo contém, este livro, que “se pediu uma liberdade maior”, é a narrativa de uma iniciação e um extraordinário hino ao amor. Lóri, a mulher, faz uma longa viagem ao mais profundo de si mesma e chega à consciência total de ser. Diz: eu é; o homem, Ulisses, um professor de filosofia, que possui fórmulas para explicar o mundo, transforma-se em algo mais simples, um simples homem. Ambos serão iniciados: Ulisses fecha os ouvidos para as outras sereias porque só está disponível para Lóri, cujo verdadeiro nome é Loreley, como a personagem de Heine e de Apollinaire, uma ondina ou sereia que costumava atrair para os rochedos os barqueiros do Reno. Na verdade, cada um vai encontrar-se consigo mesmo em face do outro.
Por ser trabalho, ascese, viagem, o amor de Lóri e Ulisses vence a diferença, o estranhamento, vence até mesmo a morte, ou o medo da morte. E a entrega finalmente física dos personagens se realiza com força tântrica de êxtase, de epifania. Para Lóri, “a atmosfera era de milagre”; Ulisses “estava sofrendo de vida e de amor”.
Nada termina, porém, o momento anuncia uma nova aurora: “Ambos estavam pálidos e ambos se acharam belos.” Clarice, que se insere sabiamente no possível, fecha com dois pontos a narrativa que começara com uma vírgula.
― RACHEL GUTIÉRREZ, Escritora, tradutora e diretora da Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector
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